Dar
Talvez o melhor (e mais difícil) post que li nos ultimos tempos.
Do admirável Timshel, na Terra da Alegria
Um frio de rachar. Um ou dois graus negativos. Vento. Uma impressão de navalhas a serem lançadas pelo ar. Uma velhota no meio da rua, de joelhos, a pedir. Romena ou moldava talvez, pelo aspecto. Com este briol que corta tudo…
Uma voz diz-me: "Dá-lhe alguma coisa." (Bem, alguma coisa. Deixa cá ver. Ora bolas, com estas tretas dos porta-moedas electrónico não tenho moeda nenhuma e a nota mais baixa que tenho vale muito dinheiro.)
"Dá-a." (Estás doido pá? Estarei a ficar esquizofrénico? Agora ouço vozes…Eu preciso deste dinheiro.)
"Para alguém estar ali no meio da rua com este frio, é porque precisa absolutamente de todo o dinheiro que lhe puderes dar." (Ó moralista tonto, espécie de grilo falante, já pensaste que quanto mais ela receber mais sofrimento lhe vou causar pois quanto mais dinheiro receber maior é a motivação para ficar ali a sofrer?)
"Dá-lhe dinheiro e deixa-te de músicas." (Não respondeste à minha pergunta. Mas deixa estar. Responde então a esta outra. Como sabes que é ela que precisa do dinheiro? Quem te garante que não é uma máfia qualquer que está a fazer pressão sobre ela? Uma máfia que sabe que as pessoas minimamente humanas tendem a dar mais dinheiro quanto mais difíceis são as circunstâncias em que vêem a pessoa a pedir dinheiro?)
"Dá-lhe o dinheiro. Não interessa nada mais. Não penses. Dá." (Mas porque é que lhe hei-de dar alguma coisa? Dizes-me para eu não pensar. Isso é uma atitude irracional. Esta fulana nunca me poderá ser útil. Nada tem para me dar que seja útil à minha sobrevivência. Porque razão serei obrigado a dar-lhe alguma coisa?)
"Por respeito pela dignidade humana desse ser humano que está aí à tua frente. Por respeito pela tua consciência moral." (Dignidade humana? Consciência moral? Isso é linguagem mágica. Existe algo de material onde esteja inscrita essa tal dignidade humana? E quais os genes responsáveis por essa dita consciência moral? Repito: qual a razão objectiva – objectiva, ouviste? – pela qual serei obrigado a dar-lhe alguma coisa?)
"Porque Eu te peço. Dá-a." (Porque razão hei-de obedecer a alguém de cuja existência duvido – a consciência moral? Deus? um truque de ventríloquo de feira? uma patologia mental que me faz ouvir vozes que só me pedem coisas idiotas?)

Obrigado.